LIVROS

CIDADÃ DE SEGUNDA CLASSE

Uma autobiografia da autora Buchi Emecheta com alguns elementos ficcionais narrados pela personagem Adah, protagonista nascida na Nigéria, que desde pequena sonha em ir para Inglaterra e ser uma escritora. 

O livro trata-se então da trajetória de Adah na década de 60, contando relatos desde a sua infância quando lutava contra os costumes culturais e foge de casa para ir para escola, já que seus pais não achavam necessário que a menina estudasse. Até o momento em que ela se casa e logo depois, se muda para a tão sonhada Inglaterra e se reconhece como cidadã de segunda classe por ser negra e por ser mulher.

‘’Você deve saber, querida jovem lady, que em Lagos você pode ser um milhão de vezes agente de publicidade para os americanos; pode estar ganhando um milhão de libras por dia; pode ter centenas de empregadas; pode estar vivendo como uma pessoa de elite, mas no dia em que chega à Inglaterra vira cidadã de segunda classe. De modo que você não pode discriminar seu próprio povo, porque todos nos somos de segunda classe.’’

Adah é uma mulher inteligente, instruída, que trabalha como bibliotecária e é responsável pelas despesas e pelos filhos, enquanto seu esposo fica em casa estudando. Mostrando que mesmo uma mulher independente financeiramente, ainda assim se encontra presa em um relacionamento abusivo cheio de traições e agressões físicas e verbais. Que não consegue dar continuidade aos seus planos e estudos por conta das obrigações e das cargas mentais que carrega, e que mesmo assim, se sente o tempo inteiro responsável pelo casamento fracasso.

O que me faz pensar nas amarras culturais em que as mulheres estão designadas, mulheres que tiveram que abandonar sonhos, estudos e trabalho por conta dos filhos, algumas por escolha própria e outras simplesmente porque não viram outra opção. Quantas Adah’s existem no mundo? Quantas Buchi Emecheta’s?

A escrita da autora é forte, potente e cheia de ironia. Ora eu estava chorando de ódio, ora por amor. O que me deu também muita vontade de ler ‘’Alegrias da Maternidade’’ que foi escrito quando a filha mais velha de Buchi Emecheta resolve ir morar com o pai, e no ‘’Fundo do Poço” a continuação de “Cidadã de segunda classe”.

Tradução: Heloisa Jahn | Editora: Dublinense | Páginas: 256

Skoob <3

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4 Comments

  • Reply
    manie
    26 de julho de 2019 at 18:02

    não conhecia esse livro, mas já botei na lista de leitura depois do seu texto <3
    que doido como nossa identidade é fluida, né? a gente sempre vai ser lido por quem nos cerca e essa leitura varia demais dependendo da onde a gente tá. lembrei daquele TED da chimamanda, sabe?
    por isso é tão importante ler livros assim, escrito por mulheres como ela, porque a gente descobre perspectivas novas para encarar a realidade 🙂

  • Reply
    Renata
    28 de julho de 2019 at 23:08

    Achei muito interessante esse livro. Infelizmente ainda existem muitas Adah’s e Buchi por aí. Essas cargas mentais e culturais são pesadas de suportar, mas é como você disse, algumas não viram outra opção.

    Renata
    Rivière du Souvenir

  • Reply
    Alê
    31 de julho de 2019 at 18:29

    Nossa, imagino que seja uma leitura bem incômoda pelo que você descreveu. Tem que ser muito forte pra ser mulher neh?

  • Reply
    Giovanna Gomes
    6 de agosto de 2019 at 13:57

    Nossa que texto legal, amei seu blog… Vi que sempre tem textos legais! Estou adorando visitar e ler seus textos..

    Parabéns!

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